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13 de abr. de 2012

Histórias de Terror

Brincadeira de Bonecas 
por: Lizz 
Adolescentes decidiram visitar um certo acampamento. Enquanto as
duas brincavam no rio elas sentiram um calafrio repentino...Virando-se
para a margem, elas viram uma garotinha de branco sob a sombra de uma
árvore. Ela tinha cerca de sete anos e carregava o boneco de uma
coelhinha nas costas. Seus olhos se encontraram e a garotinha sorriu
meigamente...se aproximando delas, parecia que seus passos causavam
sequer um mínimo de ondulação na superfície das calmas águas...e isso
deixou as garotas confusas porque não viam sinal de seus pais.
- Onde está a sua mãe? - perguntou uma das garotas, se aproximando.
-...eu me perdi. - respondeu a garotinha, relutante. - Querem brincar
comigo?
As duas recusaram e decidiram então procurar pelos pais da garotinha. O
caminho era perigoso então elas tentaram segurar a sua mão...ao que ela
insistentemente recusou. Elas procuraram muito e com afinco mas ninguém
foi encontrado. Eventualmente, elas pararam para descansar e a garotinha
falou:
- ...Desculpa. A verdade é que eu não tenho pais. Eu estava sozinha e
perdi minhas bonecas, então contei uma mentira...
E então ela estendeu a sua mão, aquela que ninguém podia segurar. E,
relutante, a abriu. Segurava um par de etiquetas que com certeza eram
das bonecas que ela tinha mencionado. As garotas cogitaram lhe passar
um sermão, mas por pena não disseram nada.
- Vamos brincar com você no lugar da sua boneca! - disse uma das
garotas, entusiasmada, querendo animar a garotinha.
- Prometem?
- Prometemos!


Um sentimento estranho preencheu as garotas e a visão delas escureceu.
Acordaram com o som de uma melodia calma tocada em um piano.
- Onde estou?... - disse uma das garotas, ainda zonza.
Ouviram vários risos escarninhos e vendo que estavam em uma estante
tentaram se mexer mas não conseguiam. A estante estava cheia de
bonecas.
- Ela está feliz, ela está muito feliz! Ela quase nunca toca!
- Sim, sim, sim, que bom!
A face das bonecas parecia viva e elas riam e tremiam. Foi aí que a
melodia do piano parou e a garotinha veio caminhando para as estantes e
o silêncio tomou conta da sala, parecia o interior de uma casa de
bonecas.
- Ninguém mais gosta de mim, então eu tenho que ir procurar por todo
mundo para conseguir o que eu quero.
Tinha uma tesoura na mão e seus passos não faziam barulho.
- Quando vocês eram mais novas, sempre brincavam comigo e eu não
ligava de não poder me mexer... Mas aí vocês me abandonaram e nunca
mais vieram me ver. Mas não importa, porque agora vocês vão brincar
comigo, néah? Vamos ficar juntas para sempre!
Ninguém nunca mais ouviu falar das duas adolescentes. Aquele
acampamento que a garotinha sempre vigiava das sombras, logo caiu no
esquecimento. A verdade é que anos e anos atrás naquele mesmo lugar,
um pai esquartejou a sua filha em um ritual satânico em meio a uma
discussão e sua alma ficou presa no mundo no corpo de uma boneca.
Cheia de ressentimento, ano após ano, na mesma época, ela sempre
procurava uma nova "amiga", que levava então para sua casa. De cada
"amiga" sua ela tirava uma parte do corpo, ficando elas assim...
Juntas para sempre, naquela brincadeira de bonecas.
Viva a sexta feira 13!

17 de mar. de 2012

Histórias de Terror

As lágrimas do Palhaço
Por: Julio Cezar Dosa

Da triste sina em ser quem era, riscou o rosto com o bastão colorido. Em
lagrimas e ira, fez um desenho borrado. A tinta húmida entrou em
confronto com as lagrimas e sua desgraça ganhou cor. Respirou fundo e
entrou com as mãos sujas de sangue no picadeiro. Gritou ao publico
adulto e infantil que costumava ouvir suas anedotas, estas revelava em
desventuras toda a desgraça de ser quem era, sentou-se no tambor
colorido e falou triste:
Deixei de ser tolo! É degradante ser escravo da vida. Notem que
estou infeliz e não é para menos! Trago-lhes alegria em minhas tragédias
cotidianas, escrachando no palco toda a desgraça de meu ser. Vocês riem
e dão sentido a elas. Masontem foi diferente. Ao me despedir deste
palco limpei meu rosto e fui ter com minha vida de homem comum. Eis
que ao entrar em minha residência encontrei coisasque não eram minhas.
O publico riu como que se já soubessem o final da historia. O palhaço
irritado levantou-se e ralhou:
³Bando de abutres sujos! Saciam-se de minha desgraça e me
escracham mais ainda á humilhação de ser quem sou! Lhes digo que
encontrei Dulce Maria, minha esposa, dormindo bêbada em nosso leito.
E mais, nossa cama tinha cheiro de outro homem, e ela em
arrependimento me confessou o adultério!
O publico o olhou apreensivo. Ele levantou se da cadeira e mostrou as
mãos ainda sujas de sangue:
³Quem pode me culpar pelo que fiz? Quem pode alcançar toda minha
desgraça e me fadar á prisão? Lhes digo mais, antes de morrer Dulce

Maria me contou que o amante estaria no show de hoje, e foi só por isto
que eu vim!
O palhaço maisque depressa apontou a arma para o publico, e com a
mão tremula mirou, continuando a dizer:
³O causador de minha desgraça aqui esta, no meio de vocês! Quem
poderá se declarar culpado e se levantar?
Do publico apreensivo ninguém se levantou. O palhaço então gargalhou
e disse dono da situação:
³Já entendi! Tem um covarde no meio de nós! Poisquero que todosos
homens se levantem!
Os homens se levantaram de mãos levantadas. O palhaço ignorou as
crianças assustadas, arrancou do bolso um lenço perfumado, arrancou o
nariz vermelho de borracha, cheirou o lenço e disse:
³Pois este é o lenço do amante de minha senhora! Quero identificar o
desgraçado que me traiu e veio ver minha cara neste espetáculo, no
intuito de rir de minhas piadas e de minha verdadeira desgraça!
Vagou com a arma engatilhada em meio aos homens. Um senhor de meia
idade exalava o mesmo perfume que o do lenço. O palhaço mirou a arma
em sua cabeça e indagou em ira:
³Como pode? Como pode adentrar em meus domínios, deitar-se com
minha mulher com entradas compradas para rir de mim depois do feito?
O homem caiu de joelhos implorando misericórdia,o palhaço respirou
fundo e disparou impiedoso.
Um jato de agua inundou a careca do pé de pano. Ele gritou em
desespero, fazendo todo o publico rir de sua particular tragédia. O
palhaço agradeceu os aplausos enquanto o homem borrado pelo medo
saia envergonhado do picadeiro.
E na prisão cumpria pena o homem de rosto pintado, contando aos
presos sua grande proeza no ultimo show ao publico pagante. Os
assassinos, traficantes e ladrões aplaudiam a astucia do homem colorido,
cuja maior proeza era fazer de sua desgraça um magnifico espetáculo.

4 de mar. de 2012

Histórias de Terror [2]

O EXORCISTA

 Por:  Sonia Rosa Pires 

            Aquela casa era muito antiga. O grande portão de madeira ia carcomido pelo tempo. Lascas de tinta marrom que caiam deixavam entrever que um dia aquele portão fora pintado de um vermelho sangue. O muro muito alto não deixava visão da casa. Dentro a casa não era confortável, apesar de espaçosa. Tinha as paredes muito úmidas e o teto embolorado. Os vizinhos evitavam até de olhar para ela, todos sabiam que ali vivera e morrera uma senhorinha que realizava abortos no calar das madrugadas. Muitos fetos foram enterrados no fundo do quintal e um novo cômodo se erguera ali.
            Surpresa porém foi ver ali chegando uma mudança, depois de anos de abandono da casa. A família que ali chegava parecia muito normal, um casal com seus três filhos.
            As portas foram abertas e a limpeza era geral. Os olhares dos vizinhos espreitavam cheios de horror o ritual de mudança. Alguns dias depois tudo estava no lugar.
            A alegria do casal parecia estampada no rosto, deleitaram-se por pagar tão baixo preço numa casa tão grande e bem localizada. A alegria, porém não durou muito. Logo souberam dos rumores das desgraças que a casa trazia. O casal tentou convencer os filhos de que aquilo tudo era boato e que logo, logo eles veriam o quão felizes seriam.
            Acontece porém que não durou muito e coisas estranhas começaram a acontecer... No início coisas mais brandas. Um dia a filha mais velha estava sentada costurando uma roupa quando sentiu um sopro muito gelado em seu pescoço, pensou que se tratava de uma brincadeira do irmão caçula, mas de repente percebeu que estava sozinha em casa. Chamou pela mãe e não obteve resposta. Levantou-se um tanto ressabiada e lentamente foi saindo daquele quarto, sentiu o sopro gelado em seus joelhos. Correu para a sala e os sopros na nuca estavam cada vez mais gelados. Depois desse dia nunca mais voltou ao normal a sua vida, pois aqueles sopros eram constantes onde quer que ela estivesse dentro de casa. Só tinha paz quando saía de casa.
            Os bichos de estimação tiveram mortes estranhas. Dois cães amanheceram mortos em cima do telhado com os olhos esbugalhados, suas cabeças pendiam pela beirada da telha deixando entrever o focinho desfigurado.
            O filho caçula começou a ver um vulto caminhar pela casa, ás vezes esse vulto surgia pelas paredes ainda com resquícios de mofo. A família via de vez em quando um porco enorme cruzar a sala e desaparecer no quarto de costura. 
            Ninguém mais conseguia ter paz naquela casa, mas tinham gasto todas as suas economias ali e agora não tinham mais para onde ir. Tentavam conviver com aquilo, mas a felicidade há muito tinha se esvaído. Certa noite porém, a família estava reunida na sala quando ouviram um forte gemido vindo do quarto de costura, o pai pediu calma a todos e devagar pegou a bíblia e encaminhou-se para o local do gemido. A mãe abraçou os filhos e todos começaram a rezar: “Ave Maria cheia de graça...” Um grito ensurdecedor ecoou pela casa e todos correram em socorro do pai. O espanto foi grande quando viram o homem com a cortina negra enrolada no pescoço. O pai tentava desesperadamente escapar, mas a força do mal era maior. A bíblia estava colada no teto e suas folhas voavam como se ali tivesse uma forte tempestade. Os móveis tremiam e eram arrastados do lugar. Os olhos do homem saltaram das órbitas e sua língua não cabia mais na boca. O tecido afrouxou-se no pescoço, mas para o homem já era tarde. A bíblia desgrudou-se do teto caindo em cima do rosto do homem. O pânico fez com que mãe e filhos corressem dali. No dia seguinte os vizinhos viram o portão entreaberto e à tarde chamaram a polícia, pois havia algo de muito estranho acontecendo ali.
            Repórteres e curiosos aglomeravam-se para ver aquele corpo deformado sair dali.
            A polícia nunca desvendou o caso e a família nunca mais fora encontrada por ninguém. A casa foi lacrada e ainda hoje ouve-se sussurros pela madrugada. As pessoas têm a impressão de que a casa possui olhos que as seguem quando elas passam ali por perto. A cidadezinha cresceu, mas no meio das belas casas jaz um mausoléu que ninguém se atreve a adentrar. A casa tem olhos que choram e chamam.

28 de fev. de 2012

Histórias de Terror

Então galera, este é o primeiro post de um novo quadro no On Hell.
Estarei postando, pelo menos uma vez na semana, histórias e contos de terror e suspense, alguns de autores famosos e outros não.
Sem mais delongas, lá vai:

O gato preto
por: Edgar Allan Poe


Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e instruíram.
No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror _ mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum _ uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.
Desde a infância, tomaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.
Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato.
Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia freqüentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.
Pluto _ assim se chamava o gato _ era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.
Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento _ enrubesço ao confessá-lo _ sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim _ que outro mal pode se comparar ao álcool? _ e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.
Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser.Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.
Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão _ dissipados já os vapores de minha orgia noturna, experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.
Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti- lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado _ um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.
Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de “fogo!”. As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.
Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito – entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo _ coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela, As palavras “estranho!”, “singular!”, bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei- me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em tomo do pescoço do animal.
Logo que vi tal aparição, pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa, o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando- o, através de uma janela aberta, para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via.
Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.
Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme _ tão grande quanto Pluto _ e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pêlo branco em todo o corpo _ e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito.
Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia; jamais o vira antes.
Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse _ detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tomando- se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.
De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que – não sei como nem por quê _ seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos – muito gradativamente _ , passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se fugisse de uma peste.
Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois, como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros.
No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava- se embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se-me entre as pernas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo _ apresso-me a confessá-lo _ , pelo pavor extremo que o animal me despertava.
Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha confessar _ sim, mesmo nesta cela de criminoso _ , quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível _ que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa _, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer… E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!
Na verdade, naquele momento eu era um miserável _ um ser que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído… uma besta- fera que se engendrara em mim, homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso _ encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim _ pousado eternamente sobre o meu coração!
Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos companheiros _ os mais sombrios e os mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade _ e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, freqüentes e irreprimíveis acessos de cólera, minha mulher – pobre dela! – não se queixava nunca convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.
Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar, O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.
Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos.
Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de idéia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.
Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita.
E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em tomo, disse, de mim para comigo: “Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão”.
O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também durante a noite _ e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranqüila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a minha alma.
Transcorreram o segundo e o terceiro dia _ e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.
No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram- me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também para tomar duplamente evidente a minha inocência.
_ Senhores _ disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada _ , é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída… (Quase não sabia o que dizia, em meu insopitável desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes _ os senhores já se vão? _ , estas paredes são de grande solidez.
Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração.
Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.
Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes.
Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco. Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!

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