As lágrimas do Palhaço
Por: Julio Cezar Dosa
Da triste sina em ser quem era, riscou o rosto com o bastão colorido. Em
lagrimas e ira, fez um desenho borrado. A tinta húmida entrou em
confronto com as lagrimas e sua desgraça ganhou cor. Respirou fundo e
entrou com as mãos sujas de sangue no picadeiro. Gritou ao publico
adulto e infantil que costumava ouvir suas anedotas, estas revelava em
desventuras toda a desgraça de ser quem era, sentou-se no tambor
colorido e falou triste:
Deixei de ser tolo! É degradante ser escravo da vida. Notem que
estou infeliz e não é para menos! Trago-lhes alegria em minhas tragédias
cotidianas, escrachando no palco toda a desgraça de meu ser. Vocês riem
e dão sentido a elas. Masontem foi diferente. Ao me despedir deste
palco limpei meu rosto e fui ter com minha vida de homem comum. Eis
que ao entrar em minha residência encontrei coisasque não eram minhas.
O publico riu como que se já soubessem o final da historia. O palhaço
irritado levantou-se e ralhou:
³Bando de abutres sujos! Saciam-se de minha desgraça e me
escracham mais ainda á humilhação de ser quem sou! Lhes digo que
encontrei Dulce Maria, minha esposa, dormindo bêbada em nosso leito.
E mais, nossa cama tinha cheiro de outro homem, e ela em
arrependimento me confessou o adultério!
O publico o olhou apreensivo. Ele levantou se da cadeira e mostrou as
mãos ainda sujas de sangue:
³Quem pode me culpar pelo que fiz? Quem pode alcançar toda minha
desgraça e me fadar á prisão? Lhes digo mais, antes de morrer Dulce
Maria me contou que o amante estaria no show de hoje, e foi só por isto
que eu vim!
O palhaço maisque depressa apontou a arma para o publico, e com a
mão tremula mirou, continuando a dizer:
³O causador de minha desgraça aqui esta, no meio de vocês! Quem
poderá se declarar culpado e se levantar?
Do publico apreensivo ninguém se levantou. O palhaço então gargalhou
e disse dono da situação:
³Já entendi! Tem um covarde no meio de nós! Poisquero que todosos
homens se levantem!
Os homens se levantaram de mãos levantadas. O palhaço ignorou as
crianças assustadas, arrancou do bolso um lenço perfumado, arrancou o
nariz vermelho de borracha, cheirou o lenço e disse:
³Pois este é o lenço do amante de minha senhora! Quero identificar o
desgraçado que me traiu e veio ver minha cara neste espetáculo, no
intuito de rir de minhas piadas e de minha verdadeira desgraça!
Vagou com a arma engatilhada em meio aos homens. Um senhor de meia
idade exalava o mesmo perfume que o do lenço. O palhaço mirou a arma
em sua cabeça e indagou em ira:
³Como pode? Como pode adentrar em meus domínios, deitar-se com
minha mulher com entradas compradas para rir de mim depois do feito?
O homem caiu de joelhos implorando misericórdia,o palhaço respirou
fundo e disparou impiedoso.
Um jato de agua inundou a careca do pé de pano. Ele gritou em
desespero, fazendo todo o publico rir de sua particular tragédia. O
palhaço agradeceu os aplausos enquanto o homem borrado pelo medo
saia envergonhado do picadeiro.
E na prisão cumpria pena o homem de rosto pintado, contando aos
presos sua grande proeza no ultimo show ao publico pagante. Os
assassinos, traficantes e ladrões aplaudiam a astucia do homem colorido,
cuja maior proeza era fazer de sua desgraça um magnifico espetáculo.
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